Quinta-feira

Citíris IX

Monaco


A seguir aos túneis, naquele fim de tarde solarengo, em vez do paraíso, mansões mirabolantes, princesas vistosas em iates sofisticados, dei de caras com o céu mais negro – disse mais tarde o empregado do bar – que o Mónaco vira nos últimos vinte anos.
Perante o dilúvio eminente, deixei para trás, curva contra curva, os turistas aceleras armados em Prosts, procurando guarida numa das esplanadas junto ao porto.
Isto hoje está com má cara – disse - antes de pedir os dois martinis, planeados ainda antes da viagem. O céu mais negro dos últimos vinte anos, sem dúvida, confirmou um aprumadinho segundo bianco.
Acendi um cigarro.
Raiado a sangue, azul, por vezes, um clarão pérola que de repente se mostra, um remoinho caleidoscópico que toca a baía e logo zarpa rumo ao horizonte.
Negro de belo.
Os terceiros viram os primeiros relâmpagos.
Indizíveis.
Os quartos pareciam saídos de um anúncio – boazona enrolada em roupão ritz - obturador insaciável.
Os quintos, rimos, em honra do ausente descapotável vermelho, planeado ainda antes dos martinis.
Em Monte Carlo olhei de soslaio o casino. Para dar azar, dissemos.
Não vi o ouro nos varandins, maseratis em fila indiana, a herdeira peneirenta enrolada em caxemira, caviar ao virar da esquina, o iate astronauta. Não vi, mas sei que estavam por lá. Como o céu mais negro que alguma vez vi.
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